segunda-feira, março 17, 2008

Viagem





Estou de partida novamente, pouco falta para começar a fazer a minha mala.Como sempre e á verdadeira maneira portuguesa só a faço quase na véspera.

Começo já por dizer que não quero voltar... não voltar aqui, mas sim não voltar ao que de mim deixarei cá com toda a certeza. Escrevo-te hoje em tom de libertação e de um sentimento desesperado de despedida.

Quero viver, juro que quero viver com todas as palavras, letras, gestos e algarismos que por ela são constituídas. Mais uma vez de partida, olho sem um objectivo, minto. Talvez o objectivo seja apenas sorrir como não sorrio há bastante tempo.

Tempos difíceis estes que tenho vivido por cá na tua ausência, e á medida que nos vamos aproximando da nossa estação o tempo tem ficado cada vez melhor, exceptuando alguns aguaceiros passageiros. Tenho a certeza de que daqui a poucas semanas já teremos as nossas vizinhas a fazer o ninho debaixo da calha da nossa porta e por cima da minha janela. Anseio também por isso, pelo chilrear dos melros na árvore que sempre existiu desde que existi. Estou maior desde a ultima vez que me viste, os meus cabelos já não são tão fartos e crespos, como quando me penteavas , uma tarefa dolorosa diga-se de passagem. Os meus olhos, esses continuam iguais, azuis e profundos mas muito mais enxaguados do que antigamente. As minhas mãos, já não são o que eram, já contam pequenas histórias ou parte delas. Já aprendi a dar acordes numa viola, já há muito que sei atar os sapatos e até já faço bolos sem a ajuda da mãe . Vou fazer 18 anos, sinto uma tremenda falta de ti e do que me fazias ser e mais,do que sabias que eu era. Tenho olhado inúmeras vezes para as tuas plantas que ainda restam, as violetas que eram minhas secaram, mas os teus malmequer ainda povoam um coração verde e robusto que a mãe faz questão em regar. Cada vez que parto para algum sitio, ou apenas porque o rumo da minha vida é mudado sinto esta necessidade de me despedir, Já parti inúmeras vezes mas acabo sempre por voltar ao que deixo cá... desta vez não. Desta vez vou partir e quando voltar não irá ser ao mesmo do que fugi e do que me fez querer ir. Há muito que não viajo e esta viagem irá ser com toda a certeza, as duas viagens mais importantes. Vou partir com pessoas das quais me sinto orgulhosa por te-las na minha vida, vou explorar um sitio novo e terei novas experiências, concerteza momentos de loucura e de um riso esmagador como sempre foi. A segunda? Bem, a segunda já a tentei fazer inúmeras vezes, mas como disse um dia ao D, ainda estamos muito verdes, talvez demasiado. De maneira que não consegui fazer essa viagem, voltei sempre... a quem quis eu enganar? Apenas não quis ver que as tentativas foram todas em vão e que voltei sempre ao que me fazia fugir. Se voltar, será ao que já fui, aquela que conheceste e viste crescer. Regressei e em tom de submissão aceitei uma, duas , três, quatro vezes aquela situação inóspita e sombria. Mas não posso continuar assim, desta vez prometo a mim mesma não mais voltar.


3 comentários:

Anónimo disse...

Faz parte da natureza incessante querer mudar. Mudar mesmo e não disfarçar essa vontade por uns dias para logo voltar ainda pior. Vai, dou-te essa permissão para seres outra, mas volta depois mas que tragas um bocadinho do que tiveste e do que foste para que seja mais fácil a tua adaptação a estas mudanças todas.

Apoio-te Lisle ;)

Coragem disse...

Fiquei com a sincera duvida se era uma partida no espaço, ou no tempo, se uma verdadeira vontade de partir, o querer e não querer seguir rumo a uma vida diferente...
Partir sem sair do mesmo lugar.
Já demonstra uma saudade, de gentes e mesmo do lugar que irá deixar para tras, que me pareceu ser mais um entre tantos (minimiza a dor com a vontade)...
Seja como for gostei muito das palavras e os sentimentos colocados em cada uma.

Agradeço a visita ao meu blog.
Bj

Deep Blue disse...

Por vezes, a mistura de palvras pode não ser a mais exacta.
Porém, não houve quem conseguisse demonstrar por desenhos de palavras aquilo que se pretende expressar.

Texto merecedor de elogios e ausente de criticas negativas.
Sentimento presente profundo.
Incógnita mágnifica.

Mente brilhante a tua
Adorei

ass: Joana Deep Blue